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quarta-feira, 25 de maio de 2016

“Sou tão misteriosa que não me entendo” Clarice Lispector

Dezembro está a chegar, para uns o começo do Inverno, para outros o começo do Verão, para outros a memória, e como ela é poderosa.
Aqui há uns anos pediram-me que escrevesse sobre uma escritora de que eu já tinha ouvido falar, já tinha lido e que, desde essas alturas o que mais tinha retido, da pessoa em si, é que por ter adormecido na sua cama com um cigarro acesso, provocou um incêndio que destruiu todo o seu quarto, foi hospitalizada em estado grave, e que teve quase a mão direita amputada devido às queimaduras sofridas.
Sabia também que se tinha apaixonado perdidamente em jovem por um escritor, mas em nada resultou porque ele era homossexual, e que, ao seu primeiro filho foi diagnosticado esquizofrenia, algo do qual nunca se perdoou, como se a culpa da doença dele, fosse toda sua.
Escreveu em colunas femininas, tipo Correio Feminino e Só para mulheres, mas é reconhecida mundialmente (muito mais nos meios acadêmicos) como uma das escritoras mais influentes do sec. XX, pela sua escrita inovadora, num estilo solto, elíptico, fragmentário, onde o caráter existencial abrange quase toda a sua obra.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

“Pó de Lua - para diminuir a gravidade das coisas” de Clarice Freire

Clarice Freire é publicitária e criou no Facebook uma página para reunir seus escritos e desenhos, a que deu o nome de “Pó de Lua”, cuja finalidade é “para diminuir a gravidade das coisas”.
Desde essa altura Clarice começou a conquistar uma legião de fãs fiéis e engajados, que se encantaram com a delicadeza de seus pensamentos, seu humor sutil e o traço despretensioso, que combina desenho e até fragmentos de palavras, conseguindo também congregar alguns nomes do cenário do Brasil como a atriz Grazi Massafera, ou a apresentadora Ticiane Pinheiro.
Da internet para as páginas de um livro, foi mais um salto para a jovem autora nascida no Recife, de 25 anos de idade, conseguindo surpreender os seus admiradores com uma proposta diferente.
“Pó de lua”, o livro, tem o formato de um dos cadernos moleskine em que Clarice exercita sua criatividade, inspirada pelas quatro fases da lua, minguante, nova, crescente e cheia, a autora trata em frases concisas e certeiras sentimentos como a saudade, o medo, a paixão e a alegria, sempre em sua caligrafia característica, ilustradas com muitos desenhos.
Por outro lado, o traço das ilustrações de Clarice Freire é suave, assim como os versos e frases que compõem o blog que mantém Pó de Lua, e a sua escrita mostrou-se forte para prender diversos leitores pelas redes sociais. O site, assim como a página no Facebook, alcançaram sucesso entre os leitores, são mais de 600 mil seguidores na página da rede social, e algumas postagens rendem mais de 3 mil compartilhamentos.

Clarice diz ter se rendido à insistência de alguns amigos que achavam um desperdício que ela jogasse os papéis fora. “O blog foi criado com o intuito de guardar as coisas, o que foi um desafio para mim, que não gostava de mostrar nada para ninguém. Aos poucos, fui me acostumando e o motivo de escrever foi ganhando mais espaço. Acho que o objetivo é colocar para fora o que não cabe dentro, acredito que cada um sabe qual é a sua. A minha é essa. Escrever no Pó de Lua começou a ser uma hora para respirar durante o dia.”
Clarice é filha do escritor e compositor pernambucano Wilson Freire e prima de Marcelino Freire, também escritor, e foi na própria família que buscou referências quando começou a escrever, “Desde pequena era levada para recitais e peças de teatro com os textos dos dois. Quando adolescente, procurava muito as escritoras, as poetisas”, diz. E o pulso delicado e firme que dá vida aos textos é influência delas, Clarice Lispector, Cecília Meireles e Cora Coralina, “Me identifico com a delicadeza mesmo falando sobre assuntos muito duros. Gosto disso.”
Clarice Freire conta que começou a escrever ainda pequena, quando ganhava cadernos de presente e se sentia na obrigação de preenchê-los, “Sempre gostei mais dos cadernos sem linhas, apesar de nunca ter conseguido escrever nada em linha reta. Minhas letras dançam, mas eu gosto. Um dia desses encontrei um poema que fiz com uns 12 anos num formato bem parecido com o Pó de Lua, achei interessante.”

O livro já está à venda, editado pela Intrínseca (clicando aqui acede ao hotsite do livro “Pó de Lua”), valendo a pena pelo menos ver o trabalho muito cuidado da autora.
Em entrevista ao blog Socila1 Clarisse Freire disse a respeito do que escreve, “Eu gosto de dar leveza às vivências do dia a dia. Aqueles sentimentos e reflexões que nos acompanham enquanto realizamos as atividades mais banais. Falo de coisas que a gente tem dentro da alma e de coisas invisíveis. Às vezes, um objeto que está ali e a gente vê todo dia está cheio de significados ocultos nele. Falo de medo e da alegria profunda, de saudade, amor e decisões. Eu busco dar leveza as coisas mais duras da vida.”
“A plataforma internet, ainda mais o Facebook, me dá um contato muito rápido e direto com quem lê e isso é maravilhoso. Ao publicar um texto, no mesmo segundo, sei a reação, o sentimento deles. Sei porque expressam mesmo”.