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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

“Pó de Lua - para diminuir a gravidade das coisas” de Clarice Freire

Clarice Freire é publicitária e criou no Facebook uma página para reunir seus escritos e desenhos, a que deu o nome de “Pó de Lua”, cuja finalidade é “para diminuir a gravidade das coisas”.
Desde essa altura Clarice começou a conquistar uma legião de fãs fiéis e engajados, que se encantaram com a delicadeza de seus pensamentos, seu humor sutil e o traço despretensioso, que combina desenho e até fragmentos de palavras, conseguindo também congregar alguns nomes do cenário do Brasil como a atriz Grazi Massafera, ou a apresentadora Ticiane Pinheiro.
Da internet para as páginas de um livro, foi mais um salto para a jovem autora nascida no Recife, de 25 anos de idade, conseguindo surpreender os seus admiradores com uma proposta diferente.
“Pó de lua”, o livro, tem o formato de um dos cadernos moleskine em que Clarice exercita sua criatividade, inspirada pelas quatro fases da lua, minguante, nova, crescente e cheia, a autora trata em frases concisas e certeiras sentimentos como a saudade, o medo, a paixão e a alegria, sempre em sua caligrafia característica, ilustradas com muitos desenhos.
Por outro lado, o traço das ilustrações de Clarice Freire é suave, assim como os versos e frases que compõem o blog que mantém Pó de Lua, e a sua escrita mostrou-se forte para prender diversos leitores pelas redes sociais. O site, assim como a página no Facebook, alcançaram sucesso entre os leitores, são mais de 600 mil seguidores na página da rede social, e algumas postagens rendem mais de 3 mil compartilhamentos.

Clarice diz ter se rendido à insistência de alguns amigos que achavam um desperdício que ela jogasse os papéis fora. “O blog foi criado com o intuito de guardar as coisas, o que foi um desafio para mim, que não gostava de mostrar nada para ninguém. Aos poucos, fui me acostumando e o motivo de escrever foi ganhando mais espaço. Acho que o objetivo é colocar para fora o que não cabe dentro, acredito que cada um sabe qual é a sua. A minha é essa. Escrever no Pó de Lua começou a ser uma hora para respirar durante o dia.”
Clarice é filha do escritor e compositor pernambucano Wilson Freire e prima de Marcelino Freire, também escritor, e foi na própria família que buscou referências quando começou a escrever, “Desde pequena era levada para recitais e peças de teatro com os textos dos dois. Quando adolescente, procurava muito as escritoras, as poetisas”, diz. E o pulso delicado e firme que dá vida aos textos é influência delas, Clarice Lispector, Cecília Meireles e Cora Coralina, “Me identifico com a delicadeza mesmo falando sobre assuntos muito duros. Gosto disso.”
Clarice Freire conta que começou a escrever ainda pequena, quando ganhava cadernos de presente e se sentia na obrigação de preenchê-los, “Sempre gostei mais dos cadernos sem linhas, apesar de nunca ter conseguido escrever nada em linha reta. Minhas letras dançam, mas eu gosto. Um dia desses encontrei um poema que fiz com uns 12 anos num formato bem parecido com o Pó de Lua, achei interessante.”

O livro já está à venda, editado pela Intrínseca (clicando aqui acede ao hotsite do livro “Pó de Lua”), valendo a pena pelo menos ver o trabalho muito cuidado da autora.
Em entrevista ao blog Socila1 Clarisse Freire disse a respeito do que escreve, “Eu gosto de dar leveza às vivências do dia a dia. Aqueles sentimentos e reflexões que nos acompanham enquanto realizamos as atividades mais banais. Falo de coisas que a gente tem dentro da alma e de coisas invisíveis. Às vezes, um objeto que está ali e a gente vê todo dia está cheio de significados ocultos nele. Falo de medo e da alegria profunda, de saudade, amor e decisões. Eu busco dar leveza as coisas mais duras da vida.”
“A plataforma internet, ainda mais o Facebook, me dá um contato muito rápido e direto com quem lê e isso é maravilhoso. Ao publicar um texto, no mesmo segundo, sei a reação, o sentimento deles. Sei porque expressam mesmo”.

sábado, 30 de agosto de 2014

A poesia é o deleite da alma

O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


(Mario Quintana)



Não Pode Tirar-me as Esperanças

Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.

(“Sonetos” Luís Vaz de Camões)


Canção Final

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.


(Carlos Drummond de Andrade)